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Cultura Thiago de Mello

Prefeitura de Barreirinha divulga Nota de pesar pela morte do poeta Thiago de Mello

“Fica decretado que agora vale a verdade, que agora vale a vida, e de mãos dadas, marcharemos todos pela vida verdadeira” (Os Estatutos do Homem – Artigo I - 1977).

14/01/2022 às 11h20 Atualizada em 14/01/2022 às 11h45
Por: Redação
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Prefeitura de Barreirinha divulga Nota de pesar pela morte do poeta Thiago de Mello
NOTA DE PESAR
“Fica decretado que agora vale a verdade, que agora vale a vida, e de mãos dadas, marcharemos todos pela vida verdadeira” (Os Estatutos do Homem – Artigo I - 1977).
A Prefeitura Municipal de Barreirinha, manifesta com profundo pesar a morte de Amadeu Thiago de Mello, poeta barreirinhense, nascido em 30 de março de 1926, no Porantim do Bom Socorro. Poeta e escritor de renome internacional, Thiago muito orgulhava o povo ariramba por retratar em suas obras o cotidiano amazônico, contando em prosa e verso sua paixão e o apelo pela preservação da floresta.
Thiago era um dos poetas de grande influência no cenário literário do país, tendo início a sua trajetória em Manaus em 1931, ainda criança, onde estudou no Grupo Escolar Barão do Rio Branco e depois, no Ginásio Pedro II. Em 1946, mudou-se para o Rio de Janeiro e chegou a ingressar na Faculdade Nacional de Medicina, mas a paixão pelas palavras falou mais alto e mudou o curso de sua vida.
Os primeiros poemas como “Coração da Terra”, “Tenso Por Meus Olhos”, “Silêncio e Palavra”, “Narciso Cego” e “A Lenda Rosa”, foram bem recebidos pelo público e crítica. Entre os anos de 1961 a 1964, foi adido cultural na Embaixada do Brasil em Santiago, no Chile, onde conheceu Pablo Neruda, grande amigo e colaborador de seus trabalhos.
No entanto, pelo tenso momento do Ato Constitucional nº 1, a explodir o Golpe Militar da Ditadura e por ver a tortura empregada como método de interrogatório, em 1977, escreveu “Os Estatutos do Homem”, sua obra mais famosa, que ecoa etos desde sua concepção.
Pelo momento de grande dor, o prefeito de Barreirinha, Glenio Seixas e o vice-prefeito, Ridson Barbosa, expressam reconhecimento por este ilustre conterrâneo ter levado a nossa Princesinha do Ramos e suas belezas naturais aos quatro cantos do mundo. Rogamos a Deus que possa confortar o coração dos familiares, amigos, admiradores e fãs que agora choram por esta grande perda.
 
Glenio José Marques Seixas
Prefeito Municipal
Ridson dos Santos Barbosa
Vice-prefeito Municipal
 
Relembre o poema mais famoso do poeta amazonense.

Os Estatutos do Homem

(Ato Institucional Permanente)

A Carlos Heitor Cony


Artigo I.
Fica decretado que agora vale a verdade.
que agora vale a vida,
e que de mãos dadas,
trabalharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II.
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III.
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV.
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo Único:
O homem confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V.
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI.
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII.
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII.
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX.
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha sempre
o quente sabor da ternura.

Artigo X.
Fica permitido a qualquer pessoa,
a qualquer hora da vida,
o uso do traje branco.

Artigo XI.
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo.
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII.
Decreta-se que nada será obrigado nem proibido.
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII.
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade.
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.


Santiago do Chile, abril de 1964

Publicado no livro Faz Escuro Mas Eu Canto: Porque a Manhã Vai Chegar (1965).

In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198
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